Freitag, 6. November 2009

O Brasil é redondo

Antes do modelo geocêntrico de Ptolomeu, acreditava-se que a terra era plana. Uma perspectiva notoriamente errada do planeta, que inclusive impedia a exploração de rotas mais ousadas no oceano. Quando o modelo geocêntrico foi comprovado e passou a ser aceito, notou-se rapidamente quão ridícula era a idéia da terra plana.

Amanhã eu começo o último capítulo da minha aventura em terras germânicas. Depois eu escrevo sobre esse capítulo, mas nesse post eu queria falar sobre as entrelinhas que separam esse capítulo dos capítulos anteriores. Assim como Ptolomeu, a minha perspectiva é diferente.

Depois de dois longos anos, finalmente estava prestes a ir para casa novamente. A princípio havia planejado ir somente em Dezembro, mas acabei mudando os planos por conta de um concurso. Os argumentos eram matadores, ou seja, trata-se exatamente da minha área, e eu estaria de volta à minha terra natal junto à minha família e amigos. Isso fez então com que eu que adiantasse minha viagem para Outubro.

Sempre sou questionado e instigado a não voltar para o Brasil, por razões óbvias, isto é, a distância astronômica entre o Brasil e Alemanha em termos de qualidade de vida, educação, civilidade e muitos outros. Mas tenho um contrato com o CNPq que me "motiva" fortemente a voltar, muito embora eu sempre tenha alimentado um desejo genuíno de voltar. Além do mais, na minha perspectiva, eu não poderia deixar o Brasil sem antes por em prática o mínimo de mudança que conservei e amadureci durante os anos. O interessante é que a maioria das pessoas que me ouvem falar isso, principalmente as mais velhas, me desmotivam dizendo que isso é dar murro em ponta de faca, mas eu não vou me render. Pois nas palavras sábias do Pit Passarel na música Prelude to Oblivion do bom e velho Viper:

"...because the world won't take example
from somebody who won't fight
for better days and hide away...
...I ask all the world, to follow the song"

Na sala de embarque em Frankfurt, e eu lá perdido em meus pensamentos tendo como pano de fundo descontraídas conversas de outros brasileiros que assim como eu esperavam a chamada para o embarque, um dos funcionários da companhia áerea perguntou se alguém falava português, pois aparentemente alguém tinha um problema e não conseguia se comunicar. Como ninguém se manifestou, eu me ofereci como intérprete. Para resumir, uma garota estava com excesso de bagagem de mão, e portanto teria que pagar 180 euros (aprox. 459 reais na cotação de hoje). Perguntei a ela quanto ela tinha e ela disse apenas 3 euros, para ligar para tia que mora na Alemanha em caso de qualquer problema, apesar de que já estaria muito tarde para tal. Eu disse ao funcionário que ela não tinha dinheiro, ao qual ele desdenhou dizendo que todos dizem a mesma coisa. O excesso se devia basicamente a presentes que a tia da garota estava enviando a familiares. O mais interessante é que outras pessoas com mais de uma bagagem de mão, eventualmente até mais pesadas, passaram sem problem. Não quero aqui julgar o funcionário, pois não sei como funciona o sistema deles de controle, talvez por amostragem, mas a garota era de cor. Sei que tentei de todas as formas ajudar para que uma excessão fosse aberta. Depois de muita conversa, ele abaixou para 40 euros. Ela não tinha dinheiro, e apesar de não conhecê-la, acabei emprestando, pois a garota não tinha ninguém mais a quem recorrer. Isso me rendeu um lamentável comentário do funcionário, dizendo que por causa disso eu poderia eventualmente conseguir favores sexuais da garota. Eu coloquei ele no lugar dele na mesma hora de forma que ele se empertigou envergonhado. Mas não pude deixar de notar que isso na verdade se trata de um retrato de como o Brasil é vendido, ou seja, carnaval, mulatas e sexo fácil. Bom, felizmente a garota era uma pessoa muito decente e a família dela me retornou o dinheiro assim que desembarcamos Salvador. Na minha perspectiva, as pessoas são de bem até que se prove o contrário (com exceção dos políticos).

Dormiria na casa de dois grandes amigos que estão morando em Salvador. Logo no caminho da casa deles, se vê o pior problema do Brasil, ou seja, o abismo social entre ricos e pobres. Na minha perspeciva a diferença social deveria ser equilibrada. Apesar de cansado, saímos para comer a típica lambreta de Salvador. Entre algumas cervejas, relembramos figuras caricatas da nossa adolescência no Marista Maranhense, como o "velho" bombomzeiro que vendia os irritantes "culhões de bode" :) Isso nos rendeu crises espasmódicas de risada. Estava feliz em estar em casa.

Finalmente chego em São Luís. Felicidade em reencontrar meus pais a parte, a primeira coisa que eu notei foi a qualidade (ou falta dela) das ruas. As ruas de São Luís estão absolutamente indecentes, repletas de buracos, bueiros, e ondulações. Outras impressões imediatas foram o trânsito caótico e construção massiva e desordenada de prédios altos e modernos, contrastando fortemente com a ridícula falta de infra-estrutura urbana. Na minha perspectiva, o crescimento urbano tem que andar lado a lado com a infra-estrutura e qualidade dos serviços urbanos, isto é, bom pavimento, transporte público, segurança, limpeza e etc.

Nos próximos dias eu me tranquei em casa para estudar para o concurso. Depois dessa fase, foi a hora de respirar São Luís mais uma vez. Estando fora por tanto tempo, acabei romantizando o Brasil. Na minha cabeça as coisas deveriam estar muito, muito melhores, mesmo tendo doses diárias da realidade trazidas pelos noticiários. Os primeiros dias são sempre difíceis, não vou negar. A sujeira das ruas e praias, a falta de respeito com o ser humano, a arrogância e indiferença da nossa elite burra e ignorante, a explosão da violência urbana e despreparo da polícia, a podridão política descrita no livro honoráveis bandidos, e etc., pois a lista é longa e distinta. Eu não estava preparado para isto, pois as coisas parecem priores do que quando deixei Sao Luis. Felizmente, e contrastando fortemente a isto, estão a brisa e o mar, a minha família e os meus amigos; pessoas de bem, com as quais tive os momentos mais divertidos em dois longos anos. Além é claro de outras pessoas especiais que conheci na minha curta estadia. Pela segunda vez estava feliz em estar em casa.

Já mais relaxado do choque de realidade, ouço um juiz conhecido me dizer: "Rapaz, não volta, aqui só é bom para passear". Aí eu digo: "Não posso, existem compromissos". Ele rebate: "Deixa a união te cobrar". Fala sério!! Ele não sabe o quanto eu me revolto quando ouço isso, ainda mais de uma pessoa que deveria dar bons exemplos! Na minha perspectiva, a "elite" deveria ser espelho de educação, cultura e idoneidade.

A minha perspectiva está errada, o Brasil não é "plano". Mas diferentemente da geometria imutável da terra, ainda acredito que a "geometria" do nosso meio é moldável segundo as nossas próprias perspectivas.

Freitag, 13. März 2009

A faísca virou fogo

É aquela estória, "pimenta nos olhos dos outros é refresco"; a pimenta agora caiu nos meus, e para ser bem sincero, a sensação não é das mais agradáveis (por motivos óbvios). Para o bem ou para o mal, parece que o vento levou a faísca da Paraíba lá pro Maranhão.

Não me entendam errado, o que eu escrevi sobre a cassação do Cássio Cunha Lima também vale para o caso do Jackson Lago. Obviamente condicionado se o processo for conduzido com retidão e se as denúncias forem devidamente provadas.

Mittwoch, 18. Februar 2009

Motivo para festejar

Os fins de semana aqui são muito diferentes de São Luís, talvez pela cidade que eu moro ser pequena, mas quando chega a sexta-feira eu começo a contar as horas para a segunda chegar de novo, pois pelo menos no ambiente de trabalho há mais vida. O que quero dizer é que já faz algum tempo que eu não sei o que é me empolgar de verdade com a chegada do fim de semana. Tudo bem que no Brasil também não tinha lá grandes motivos para festejar, a não ser pela praia ao lado, o sol brilhando, o sorriso dos amigos na mesa do bar e a família reunida para o tradicional churrasco do domingo. Pensando bem, havia sim grandes motivos para festejar.

Esse fim de semana no entanto eu tenho um motivo para festejar, nao só eu, mas tenho certeza que todos os brasileiros com um pouquinho de consciência política. Eu estou falando da cassação do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima. As vezes levado pelo calor do momento eu exagero um pouquinho nos meus pontos de vista, eu admito, e eu falei que eu desistia dos políticos brasileiros em um dos meus posts. Eu me referia na verdade a esse tipo de político, e nada me deixa mais feliz quando a justiça os trata com a imparcialidade e justiça apropriadas.

Tenho certeza que muitos desaprovam a cassação, pois o consideram, apesar de tudo, um bom político. É aquela famosa história: "Rouba mas faz". Não tô dizendo com isso que ele roubou ou deixou de roubar, não posso fazer esse tipo de julgamento. É só a máxima que geralmente é usada para os políticos os quais sabemos que cometem irregularidades mas que pelo menos aparentemente fazem alguma coisa pelo público. O ponto que quero chegar é que independente de qualquer coisa, ele cometeu irregularidades devidamente provadas e que são passíveis de punição de acordo com a justiça eleitoral. Vejam bem, independente de quem assumir ser melhor ou pior, a justiça foi feita e serviu como bom exemplo. Eu sei que a maioria das leis no Brasil servem de enfeite, mas a "ordem" que compõe o lema da bandeira nacional só vai ser atingida quando as leis forem cumpridas com imparcialidade. A esse tipo de coisa, eu chamo de "faísca de mudança", ou seja, uma pequena coisa que tem o potencial de se expandir e assumir grandes proporções.

Considero a Paraíba o meu segundo estado, e sendo assim amigos conterrâneos, eu os convoco a festejar nesse fim de semana. Preparem a pamonha, a canjica e o cuzcuz de milho para o café, o feijão verde, nhame, arrumadinho e carne seca para o almoço e dancem forró a noite inteira no parque do povo, pois a Paraíba acaba de dar um bom exemplo para o resto do Brasil.

Dienstag, 10. Februar 2009

Onde os dinossauros ainda vagueiam

Recebi um email recentemente do meu grande amigo e grande economista Sr. Fozzie com um artigo da revista "The Economist" em anexo, que merece ser divulgado. Abaixo, uma visão de fora, talvez não tão turística, mas nem por isso menos verdadeira, da nossa realidade como maranhenses.

Obs.: Notem que o artigo abaixo é uma tradução livre minha, o artigo original pode ser acessado aqui. Também aconselharia uma espiadinha aqui, onde o Ivan Lessa da BBC Brasil vai um pouco além de traduzir partes do artigo.



Um chefão da política brasileira
Onde os dinossauros ainda vagueiam

Uma vitória para o semi-feudalismo

JOSÉ SARNEY foi eleito pela primeira vez (deputado federal) há quase meio século. Nos últimos 40 anos ele controlou a fortuna do Maranhão, um estado na parte mais oriental da região amazônica. Ele representou o estado como deputado federal (duas vezes), governador e senador (duas vezes). Em 1985 ele se tornou o acidental e indistinto presidente do Brasil, quando o candidato eleito (Tancredo Neves) faleceu antes de poder exercer o cargo. Mais recentemente ele foi o senador do Amapá (duas vezes). Tempo de se aposentar, alguém pode pensar.

O Sr. Sarney parece um retrocesso à uma era de semi-feudalismo político que ainda prevalece em algumas regiões do Brasil e arrasta o resto para trás. Apesar disso, e com o tácito apoio de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente centro-esquerdista do país, o Sr. Sarney foi escolhido para presidir o senado nacional. É a terceira vez em sua carreira que ele empossa esse poderoso cargo, o qual lhe confere um certo grau de controle sobre a agenda do governo e abre oportunidades para tráfico de influência.

E assim se sustenta o domínio do Sr. Sarney sobre o Maranhão, justamente quando alguns acreditavam que ele já estava chegando ao fim. O centro de São Luís, capital do estado, é decrépito. Alguns prédios históricos são bem cuidados, tais como a iluminada igreja branca da nossa senhora do desterro. Mas a maioria está sucumbindo no calor húmido da cidade. As ruas são repletas de buracos. Um extraordinário número de pessoas passa o dia em estacionamentos públicos na esperança de conseguirem alguma esmola em troca de indicarem lugares para estacionar. Numa cidade de 1 milhão de pessoas, houve 38 assassinatos só no mês passado.

Mas é fora de São Luís onde o retrocesso do Maranhão é mais evidente. Em Sangue, uma cidade no interior do estado, muitas pessoas vivem em casas de um só cômodo, cobertas com folhas de palmeiras, sem água encanada e eletricidade. Transporte público é escasso. Não há muito para se comprar ou vender além de bacuri, uma fruta amazônica. O sistema educacional do Estado é precário. A taxa de mortalidade infantil é de 39 para cada 1000 nascimentos vivos e está 60% acima da média brasileira.

O domínio político por uma única pessoa ou família não é incomum no nordeste do Brasil. Mas isso está começando a mudar. O clã da família Sarney está se tornando atípico. A filha do Sr. Sarney, Roseana, foi governadora do Maranhão e atualmente representa o estado no senado. Seu filho foi ministro no mandato anterior do governo. Outros parentes e relativos possuem empregos nas cortes e serviços públicos do Maranhão. Um dos tenentes do Sr. Sarney, Edison Lobão, é o ministro de Lula para minas e energia. Quando ele assumiu o ministério, o cargo antigo do Sr. Lobão no senado nacional foi para o seu filho. Todos os três senadores do Maranhão respondem ao Sr. Sarney, assim como os seus companheiros senadores do Amapá.

Esse controle é facilitado pelo fato da família Sarney possuir a maior empresa de comunicação do Maranhão. A estação de televisão transmite programas da Globo, a qual produz as novelas mais populares do Brasil. Essas são intercaladas com notícias floreadas sobre a família Sarney. O controle sobre estações de rádio e televisão é particularmente importante na zona rural do Maranhão, onde a maioria dos eleitores é analfabeta e portanto onde os Sarneys conseguem a maioria dos seus votos. "Nós somos dominados por uma oligarquia eletrônica", lamenta Zé Reinaldo, o governador anterior.

Mesmo assim, o poder da família pode estar finalmente enfraquecendo. Em 2006 Roseana Sarney perdeu as eleições para o atual governador Jackson Lago, o qual está sendo, juntamente com seus deputados, investigado por crimes eleitorais. Se eles forem cassados, a Sra. Sarney vai assumir o governo mais uma vez. Nas eleições municipais do ano passado, os candidatos dos Sarneys sofreram várias derrotas. "Sarney sempre diz que o Maranhão precisa votar nele de forma que ele possa trazer dinheiro de Brasília", diz Arleth Santos Borges da Universidade Federal do Maranhão. "De fato, ele precisa de poder em Brasília para ter poder aqui". E é exatamente isso que a presidência do Senado lhe traz.

Enquanto isso o Maranhão vai seguindo o seu triste caminho. "Por quinze anos eu escuto Sarney dizer que ele vai trazer turismo e desenvolvimento para o Maranhão, mas nós continuamos a ter uma única rodovia para entrada e saída dessa cidade", diz Hélio, um garçon em São Luís. "E ambas são uma bagunça."

Freitag, 7. November 2008

Tirando a poeira

Manter o blog atualizado nao é tarefa fácil, e apesar de ter centenas de assuntos para falar, quase sempre aparece alguma coisa mais urgente. Eu evito transformar o blog num diário e prefiro falar sobre assuntos mundanos sob o meu ponto de vista, mas outubro foi um mes especial, e sendo assim, eu me permito falar um pouco do que andei fazendo nesse mes.

Além de outras coisas que falarei mais na frente, comecei o mes fazendo viagens bastante interessantes. Primeiro fui a bela Ilha de Re na Franca, por conta de um curso de verao em aprendizagem de máquina, onde tive oportunidade de me atualizar e conhecer pessoas bem interessantes de todas as partes do mundo;

uma semana após chegar da Franca, tirei uma semana para cumprir uma velha promessa e visitar velhas amigas na Lituania. Eu precisaria de uns dois posts para falar a respeito, um para cada viagem, mas a Lituania foi particularmente interessante, pois eu pude imergir num país pós-uniao soviética, e ver que apesar da imensa riqueza cultural, os países do leste europeu ainda sao extremamente pobres se comparados a países como Alemanha, Franca e Espanha, por exemplo. A maioria desses países só conseguiram sua independencia no incicio dos anos 90, mais ou menos na mesma época que o muro de Berlim caiu e a Alemanha foi reunificada. Eu só posso imaginar a quantidade de mudancas drásticas que estava ocorrendo na Europa nessa época, um período excitante com certeza. A minha amiga Edita foi uma fantástica guia e em poucos dias pude conhecer os principais pontos do país. Apesar do país ser pequeno (o estado do maranhao é mais ou menos 5 vezes maior), tem paisagens de contos de fadas, uma identidade muito forte possuindo inclusive língua própria, além de uma história fascinante.


Assim que voltei meu pai chegou para me visitar. Uma grande alegria com certeza, pois a minha família me faz muita falta. Tentei fazer o mesmo que a Edita fez comigo e visitei com meu pai alguns dos pontos mais badalados da Alemanha como: Hamburgo, Berlin, Heidelberg e Frankfurt. Além disso fomos a Strassburg na Franca. Em cada uma dessas cidades aproveitei para reencontrar grandes amigos que fiz durante minha estadia aqui até entao.

Deixei meu pai no aeroporto e de lá segui direto para Karlsruhe, onde fui apresentar um artigo na conferencia internacional em Web Semantica (ISWC 2008), uma boa evidencia da relevancia da minha pesquisa até entao, dado que a ISWC é a mais renomada e importante conferencia na área. Fiz vários contatos importantes e conheci grandes nomes na área.



Outubro marcou tres anos que estou aqui na Alemanha, e apesar de ter pensado várias vezes em escrever um diário, nunca o fiz, mas os momentos mais fortes tenho claros na cabeca, como o dia em que cheguei:

03.10.2005 – No feriado nacional da reunificacao Alema eu chego, ainda sentindo o nó na garganta de tudo que deixei pra trás e o medo natural de todo um novo mundo de incertezas que se levantava na minha frente. Para a minha felicidade dividia uma casa com mais dois estudantes estrangeiros, um proveniente do Chile e o outro de Camaroes, que estavam na mesma situacao que eu e dessa forma se tornaram quase que imediamente a minha nova família naquela terra estranha. Nesse mesmo dia resolvemos caminhar pelas redondesas, desertas por causa do feriado, e fomos abordados logo de cara pela polícia que com a mao na pistola pediu nossos passaportes. Com excecao do Camaronense ninguem mais falava alemao, entao o momento foi um pouco tenso pois nao sabíamos o que se passava e o que deveríamos fazer, mas Pouokam (de Camaroes) nos explicou do que se tratava e por sorte todos carregavam seus devidos passaportes. Nao foi uma impressao muito animadora para o primeiro dia, mas sabia que dali pra frente nao poderia me permitir fraquejar, tinha que me acostumar com o fato de que nao tinha mais volta (pelo menos até terminar o doutorado).


E assim se passaram seis meses de curso de Alemao em Frankfurt. Em Abril de 2006 comecei finalmente meu doutorado em Freiburg. E depois de mais 8 meses em Freiburg, meu professor recebe uma ótima proposta em Hildesheim (Norte), para onde eu juntamente com o meu grupo nos mudamos, e estamos até hoje.

Em Outubro eu também fiz 30 anos. O aniversário foi no dia da minha apresentacao na conferencia, entao nao pude fazer nenhuma festa, mas a Karen e o Alex, dois magníficos amigos que tenho, dirigiram 1 hora numa chuva torrencial para me resgatar da conferencia de forma que pudéssemos pelo menos jantar juntos.


Putz, 30 anos... Nunca pensei que essa idade um dia ia chegar, e querendo ou nao, a adultice vem com ela. Eu olho para os meus amigos, com excecao dos que trabalham comigo, pois estao na mesma situacao que eu, e quase todos já estao casados, alguns inclusive já até divorciados ;) Me dá um frio na barriga, mas eu sei que geralmente o caminho científico cobra o seu preco atrasando algumas coisas também importantes na vida do ser humano, como constituir família por exemplo, mas isso está na minha lista e eu espero nao demorar muito mais para que esse e outros planos se concretizem. Continuo sendo um otimista e sonhador, mas o que muda é a dose de sobriedade que a idade madura traz. Mas se alguém me perguntar qual foi a coisa mais importante que mudou com a idade, eu diria aprender a dar mais valor e nunca esquecer do sorriso de crianca, pois sorriso de crianca é puro e descarregado de malícia.

Montag, 14. Juli 2008

O lema está errado

Eu estava me preparando para escrever sobre a "singularidade tecnológica", um tema deveras interessante que serve como exercício para vislumbrar um futuro cada vez mais provável, onde o mundo é dominado por máquinas inteligentes, cenário antes imaginável apenas em contos de ficcao científica. Já tinha até delineado todo o post na cabeca ontem a caminho de casa, mas percebi que se eu realmente quiser falar sobre outros temas que nao política brasileira eu tenho que parar de ler os noticiários.

Poucos países do mundo humilham tanto os cidadaos honestos como o Brasil. Dados alguns acontecimentos recentes que me fizeram sentir assim, humilhado, eu me sinto na obrigacao de me defender.

O referido acontecimento é o caso do tal banqueiro, quero dizer bandido, do banco Opportunity que tem o potencial de ser o maior escandalo de corrupcao do país. Eu acho que nao preciso falar muito do caso, já que deve ser um dos assuntos mais comentados em jornais e revistas no momento, e sendo assim basta dizer que a lista de crimes desse cidadao e agregados é longa e distinta, onde as somas desviadas sao dignas de jogos de loterias. Só para dar um exemplo, depois do desfecho da investigacao foi oferecido 1 millhao de reais a um delegado da PF para que o nome do acusado e de alguns familiares fossem tirados do inquérito. Pois bem, o fato é que a polícia federal fez um trabalhdo impecável de investigacao, coletando provas praticamente infalíveis, inclusive de áudio e vídeo. Os suspeitos foram presos, com direito a algema e tudo mais, procedimento normal a qualquer bandido, ou nao?! O interessante é que ele foi preso duas vezes, sob diferentes acusacoes, e nas duas vezes foi solto. É óbvio que os peixes grandes sabem que se ele for preso ele vai jogar m**** no ventilador sujando muita gente. E se a mídia trouxe as prisoes ao público melhor ainda, pois serve como exemplo, bom exemplo diga-se de passagem. Veja bem, nao estamos falando de especulacao, mas sim de uma investigacao séria que levou 4 anos e culminou em provas praticamente inquestionáveis. O tratamento que foi dado aos acusados foi o mesmo que se dá a qualquer bandido, e sendo assim é difícil de entender porque a PF foi tao criticada pelo (des)governo. Na verdade eu acho que sei, mas eu digo mais na frente.

O estranho é que em vez de bater palmas à operacao da PF, o nosso presidente criticou!!!! "A PF exagerou no tratamento aos acusados", disse ele em privado. Isso para mim é coisa de quem tem o rabo preso.

O pior de tudo é que com tantas leis obsoletas para serem alteradas na Constituição, eles estao preocupados em alterar uma que nao constranja pessoas devidamente investigadas e acusadas de desvios de recursos públicos!! É sempre um desafio seguir a lógica desse pessoal, mas se eu entendi direito, um cara que rouba, prejudica milhoes de pessoas roubando-lhes dinheiro e desfalcando os cofres públicos nao pode mais sofrer constrangimento!

Agora ficou fácil de ver porque a PF foi criticada. Porque quando chegar a hora dos políticos defensores dessa lei, eles nao precisarao passar pelo "corredor polones". Eu nao vejo outro motivo para o estabelecimento dessa lei risivel e humilhante aos cidados de bem.

A nova lei vai ser pautada nas seguintes prerrogativas:

1- O acusado que se sentir ofendido por ter sido algemado pode entrar como uma acao contra a autoridade;

2- O acusado que se sentir ofendido de ter sido exposto à mídia também poderá entrar com uma acao;

3- Nao poderá haver nenhum vazamento de informacao nas acoes de investigacao da PF e outros setores.

E o que que acontece aos cidadaos honestos que assim como eu se sentem constrangidos com a burrice, estupidez e canalhice dos políticos por trás dessa lei?! E o mais importante, o que acontece aos cidadaos que foram lesados pelos crimes cometidos?! É triste "viver" num país onde bandido tem mais direito que gente honesta.

Eu de repente comecei a pensar no lema usado pelo (des)governo do Brasil: "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!". Chega a ser até romantico. Um energético moral para os momentos difícies.

1 - Nao se pode mais sair de casa tamanha é a violencia;

Mas quer saber: "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!"

2 - Num hospital público do Pará morreram recentemente 54 crianças em um mes- 12 delas em tres dias;

Mas eu bato no peito e digo: "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!"

3 - O casal Garotinho junto com outros agregados foram recentemente acusados de improbidade administrativa e desvio de verbas públicas do Projeto Saúde em Movimento — o total desviado é próximo de R$ 234 milhoes.

Mas eu "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!"

4 - O brasileiro está entre os piores do mundo em matemática.

Mas nao importa: "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!"

A minha conclusao pessoal é: "Sou Brasileiro e nao desisto nunca!" = "Dar murro em ponta de faca". Portanto eu desisto, e os convido a desistir junto comigo. Desistamos de acreditar nos políticos do Brasil. Sabem quantas pessoas haviam hoje para protestar durante o depoimento do banqueiro bandido?! Uma!!! Olhem para a Argentina, nossa vizinha, e vejam a imensidao de pessoas que está indo as ruas protestar contra o aumento dos impostos. Sigamos esse exemplo e protestemos, da forma que pudermos, mas protestemos.

Desistamos de esperar pelos nossos políticos.

Recentemente ajudei voluntariamente, como interprete, um grupo de jovens brasileiros do nordeste que estao passando o mes aqui, os quais desenvolvem projetos sociais no nordeste patrocinados por uma diocese da cidade onde moro que é ligada a obra Kolping. Um dos principais benefícios trazidos pelo projeto foi a construcao de cisternas em algumas cidades do sertao nordestino. Os nordestinos traziam cartas e mais cartas de agradecimento, pois as cisternas mudaram suas vidas. Eu tenho a impressao que em algumas cidades do Brasil, os prefeitos passam mandatos inteiros sem fazer absolutamente nada pela cidade.

É dificil mensurar a vergonha que senti nesse momento. A vergonha de ver o quanto se pode fazer com tao pouco e que mesmo o tao pouco nao é feito pelos políticos, e nao é por falta de dinheiro, mas sim por pura canalhice. Conversando com um dos financiadores do projeto, ele me disse que além desses políticos nao ajudarem em nada, eles ainda tomam para eles a bem feitoria dos outros e usam como propaganda eleitoral... "é amigo, vergonha alheia é só o que eu sinto o tempo todo ".

O pior de tudo foi quando um dos mais pobres do grupo tentou me dar 10 euros do próprio bolso para comprar um aparelho digital de medir pressao sanguínia para a sua comunidade, pois segundo ele "o prefeito nao liga muito para os postos públicos de saúde". O engracado é que ele nao disse isso num tom de censura ou reclamacao, mas num tom de conformacao. A mensagem que tirei disso é que ele também desistiu, desistiu de esperar, desistiu de confiar e decidiu fazer por conta própria. Sem querer me fazer de bom samaritano eu me ofereci para comprar o aparelho e vi que nao precisamos esperar pelos políticos para fazer o pouco que para muitos é muito.

Desistamos dos políticos, mas nao do nosso povo.

Donnerstag, 29. Mai 2008

O grito

Na Alemanha, assim como em todos os países e todas as culturas, há aspectos positivos, negativos e simplesmente diferentes. Eu ainda vou falar mais sobre esses contrastes em outra oportunidade, mas o que eu acho mais interessante de notar é que enquanto no Brasil o sistema social nao funciona direito, apesar do povo ser extremamente social, aqui o sistema social funciona extremamente bem, apesar do povo ser (em geral) extremamente individualista. Mas individualismo a parte, a Alemanha é um país onde os bons exemplos sao resguardados com unhas e dentes. Há quem diga que isso ocorra como uma compensacao pelos erros da segunda guerra, mas eu nao sei se o argumento é genérico o suficiente. Seja como for, eu selecionei algumas estorinhas para contar onde eu sou ora coadjuvante, ora protagonista, para exemplificar o culto do bom exemplo pelo povo alemao.

Eu lembro que um dos requisitos para poder se matricular na Universidade no início do meu doutorado era fazer um plano de saúde. Aqui há dois tipos de plano de saúde, um subsidiado pelo governo (mais barato) e os privados, naturalmente mais caros. Geralmente estudantes universitários podem fazer o plano do governo, mas havia uma nova regra em vigor na época na qual estudantes de doutorado só podiam fazer plano privado. Mesmo sabendo disso eu fui no prédio do plano de saúde subsidiado pelo governo para melhor me informar e saber se a tal regra realmente já havia entrado em vigor. Para a minha tristeza era o caso, o que queria dizer que eu teria que procurar rapidamente um plano privado para poder me matricular. Isso representava uma certa dor de cabeca para mim, pois além do plano privado ser mais caro, eu nao tinha a menor idéia de faixas de preco e custo benefício. Ao sair do prédio eu encontrei um amigo mexicano que tinha conhecido recentemente num evento do DAAD (orgao que oferece bolsas de estudo na Alemanha) e que estava mais ou menos na mesma situacao. O interessante é o que o mexicano tinha conseguido fazer o plano e eu nao. "Hum...tem alguma coisa errada aqui", pensei. O mexicano me aconselhou a falar com outra pessoa e decidi seguir o conselho. Para minha surpresa, foi só trocar de atendente que eu consegui fazer o plano. Para falar a verdade, a atendente nao me perguntou se eu era estudante de doutorado, mas como eu apresentei a carta de aceitacao da Universidade e lá constava que eu tinha sido aceito para o programa de doutorado, eu achei que nao havia necessidade de dizer nada. Muito bem, feliz da vida eu volto para a Universidade para pegar o restante da papelada e finalmente me matricular formalmente na Universidade. Na época eu estava dividindo uma sala com estudantes de outros grupos de pesquisa para os quais eu acabei comentando que tinha feito o plano de saúde e estava de saída para fazer minha matrícula. Eles me perguntaram qual tinha sido o plano e eu falei, no qual um deles falou: "Mas tá errado, tu nao pode fazer esse plano sendo doutorando". Eu falei: "É mas ela nao falou nada entao aparentemente tá tudo certo". Ele rebateu: "Deve ter havido um erro, eu vou ligar para lá." Ai eu falei: "Nao te preocupa com isso, deixa que eu resolvo". Na verdade para mim já tava tudo resolvido, eu só queria me matricular e evitar a dor de cabeca de procurar um plano sem ter referencias. O cara me ignorou e comecou a ligar, nessa hora eu pensei: "mas que filho da p*** intrometido". Ele explicou a situacao e realmente a atendente nao tinha atentado para o fato de que a carta mencionava o fato de eu ser doutorando e sendo assim eu devia voltar lá para cancelar o recém feito seguro. Apesar de ele estar certo e eu errado, eu fiquei por muitos dias p*** com esse cara por causa do intrometimento. Alguém pode dizer que eu nao tinha culpa pois o erro foi da atendente, mas se omitir também é errado e sendo assim no final eu estava errado.

Grito nr.1. Quando se está errado engolir um ou outro sapo faz bem, contanto claro que eles sirvam para que os erros nao sejam mais cometidos. E aqui caros leitores, eu já engoli alguns. Assim que comecei a andar de bicicleta aqui eu nao tava muito interado das regras de transito para ciclistas e estava pedalando à noite numa calcada só para pedestres. O interessante é que tanto a calcada quanto a rua estavam desertas, com um fluxo esparso de carros. Um desses esparsos carros passou e me viu pedalando na calcada. O motorista parou o carro e decidiu gritar comigo pelo fato de eu estar pedalando numa área só para pedestres. "Essa área é só para pedestres!!!!". Toda a minha brasilidade veio a tona e o primeiro pensamento foi:"Vai te lascar!! ":) Desculpem minha aparente falta de civilidade, mas felizmente eu só pensei. O que saiu da minha boca na verdade foi:"Desculpe eu nao sabia". O que eu podia dizer afinal?! Eu estava errado e ponto final. Bem, depois disso nunca mais pedalei numa área que nao fosse para ciclistas.

Outro dia eu me atrasei um pouco no caminho para a parada de onibus. Ao ver o onibus chegando eu corri mas o motorista decidiu nao me esperar. O interessante é que 15 metros depois ele parou num sinal de transito, o que me deu o tempo necessário para alcanca-lo. Eu parei na entrada do onibus e pedi para o motorista abrir a porta, no qual ele muito friamente balancou negativamente cabeca. Até hoje quando penso nisso me dá vontade de mostrar o dedo do meio para esse motorista. A culpa é mais uma vez minha por ter me atrasado, e nao tem desculpa de nao saber os horários já que os onibus sao extremamente pontuais e as tabelas de horários estao disponiveis tanto nas paradas quanto na internet. Mas por favor, nao há problema em ser flexível de vez em quando. Eu achei um pouco demais até mesmo para os padroes alemaes, mas o que o motorista queria na verdade era preservar o bom exemplo da pontualidade de forma que outros passageiros nao repetissem o meu "mal exemplo". Na hora eu fiquei p*** com esse motorista e teria lavado a alma mostrando o dedo para ele, mas seria um cara menos civilizado e mais pobre, já que aqui se recebe uma multa ao mostrar o dedo do meio a alguém.

Mais uma com onibus. Eu mais uma vez atrasado vejo o onibus na parada e decido correr. Dessa vez, para a minha surpresa, o motorista resolve me esperar. Eu entro no onibus mostro minha carteira de estudante e passo sem falar nada. Nesse momento o motorista altera a voz e decide me dar uma licao de moral, pois eu nao tinha agradecido por ele ter me esperado. "Ah nao, perai, agora eu mando esse motorista para a casa do c***", pensei. Respirei fundo, e felizmente o que saiu da minha boca foi: "Se esse é o problema entao obrigado". Diplomacia é uma arte na qual eu tenho me apefeicoado. Dessa vez, entretanto, eu nao estava errado, eu nao tinha obrigacao de agradecer, mas ele também nao tinha a obrigacao de me esperar, e além do mais teria sido um bom exemplo para os outros passageiros se eu tivesse agradecido, e portanto no fim o motorista tinha certa razao.

Grito nr.2. Para fechar esse post, uma estorinha que aconteceu recentemente. Eu estava parado na calcada esperando o sinal verde para atravessar a rua quando uma mae com a filhinha para ao meu lado. A mae era bastante jovem e meiga e carregava um sorriso que a deixava ainda mais jovem e bonita. Quase eu pergunto se ela era mae solteira. Eu aqui perdido nos meus pensamentos, quando alguém decide atravessar a rua no sinal vermelho, já que nao tinha nenhum carro a vista. Nessa hora a mae grita: "O sinal tá vermelho!!!!". Sai...!!! Peguei um susto, de repente a mae era qualquer coisa menos meiga. "Eu que nao me meto mais com essa mae, se ela é solteira fez por merecer", pensei. O cara tentou dizer alguma coisa que eu nao entendi, pois ainda nao tinha me recuperado do susto, no qual ela respondeu:"Tu nao tá vendo que tem uma crianca aqui?!". Notem o tamanho do stress só para resguardar a crianca de um mal exemplo. Tirando o stress, ela tá certa, ou seja, a crianca aprende na escola que é errado atravessar no vermelho e de repente tem que se confrontar com o fato de na vida real nao ser bem assim. Nao pude deixar de pensar no famoso quadro "O Grito" de Edvard Munch .


Abrindo um paranteses, eu li a algum tempo atrás uma matéria sobre o fato de pais de alunos de uma escola privada e cara de Sao Luis darem péssimos exemplos ao violarem inúmeras regras de transitos ao buscarem os filhos, causando caos e transtorno na entrada da escola. Tao desperdicando dinheiro, pois ser irresponsável e sem respeito se aprende de graca. Eu já disse antes que no Brasil ser rico nao significa necessariamente ser civilizado?!

Eu já falei sobre a questao dos bons exemplos antes. Nao precisa ser tao extremo quanto aqui, já que isso também deixa o povo constantemente estressado e chato, mas continuo acreditando que o culto ao bom exemplo se traduz numa sociedade mais civilizada.